Libertadores da América

Mirassol se prepara para a estreia na Libertadores: 'Um case de sucesso'

Presente em grande parte dessa ascensão do clube, Ivan Baitello falou sobre as expectativas para este novo desafio

(Crédito: Pedro Zacchi/ Ag. Mirassol)

Publicado em 06 de abril de 2026, às 11h50

Guilherme Campos,
especial para o site da FPF*


O Mirassol vive um momento mágico de sua trajetória no futebol profissional. Pela primeira vez em sua história, irá disputar uma competição internacional: a Libertadores da América. Pelo segundo ano consecutivo, o Leão encara mais um grande desafio, assim como na última temporada, em que debutou na elite do Brasileirão, onde realizou feitos históricos no cenário nacional.

O clube está em uma ascensão meteórica em escala estadual, nacional e continental. A equipe saiu da Série A3 do Campeonato Paulista até o auge da Libertadores em apenas 23 anos. Um dos personagens da construção deste projeto foi Ivan Baitello, que atuou na equipe como atleta, técnico e auxiliar ao longo de várias temporadas. Como jogador, teve duas passagens pelo Mirassol, em 1995 e, posteriormente, em 1997 e 1998. Após pendurar as chuteiras, iniciou sua carreira na beira do gramado, nas categorias de base do Leão, onde trabalhou também como assistente técnico e treinador do time principal em três oportunidades. Está no clube desde 2016 de forma ininterrupta, porém esteve presente na equipe no período da disputa da terceira divisão paulista.

O Início da Reconstrução
Em 2004, o Mirassol começava a sua arrancada rumo à Libertadores com o vice-campeonato do Paulista Série A3, conquistando o acesso para a segunda divisão estadual. Após três anos na Série A2, chegou à elite de São Paulo em 2008, onde permaneceu até 2013, quando foi rebaixado pela primeira vez. Com o vice-campeonato da A2, retornou ao Paulistão em 2017.

“Deixando bem claro que o Mirassol, mesmo na época de Série A3, com as dificuldades financeiras, era um clube que prezava muito pela gestão bem feita e pelo orçamento. O clube é um exemplo claro do trabalho sério que é feito pela gestão, que tem que ser valorizado sempre, porque, se você não tiver gestão, independente do setor, você não consegue ter resultado. E, quando o Mirassol começou a ter alguns recursos a mais, a primeira coisa que foi pensada foi investimento aos poucos. Então, foi aos poucos investimento em estrutura. Aos poucos foi fazendo esses investimentos, fazendo com que o clube crescesse.”, analisou Ivan sobre o início do projeto da equipe.

Baitello aproveitou para ressaltar a mudança no pensamento do clube ao longo dos anos. “Sempre foi sonhado ter os acessos e conseguir chegar no nível que nós estamos. Mas, da maneira que aconteceu rápido, quando chegou da C para a B, da B para a A e o que fez na primeira divisão, só corrobora que, por mais que seja tão difícil e tão distante atingir, o clube possibilitou, através da estrutura, da capacitação dos profissionais. Estamos falando de 20 anos, mas você sair de uma Série A3 para esse momento hoje faz a gente acreditar muito que os processos bem feitos, independente do setor, vão trazer o resultado.”

O auxiliar também destacou a importância da melhoria nas estruturas e na formação de profissionais capacitados. “A gente fala muito da estrutura, mas esquece que, para gerir a estrutura, tem que ter profissionais preparados. É um clube que capacita muito os profissionais. Isso faz também que potencialize e faça as coisas acontecerem. É muito importante salientar isso, que o clube foi mão dupla em relação à estrutura e potencialização e capacitação dos profissionais.”, disse.

Trajetória Nacional
A ascensão do Mirassol em território nacional iniciou no Paulistão de 2019, quando somou 11 pontos na competição, ficando de fora do mata-mata daquela temporada. Entretanto, classificou-se para a disputa da Série D do Campeonato Brasileiro no ano seguinte. Em 2020, conquistou seu primeiro título nacional ao vencer a quarta divisão, garantindo uma vaga na Série C, quando levantou a taça no ano seguinte ao acesso, em 2022. Em 2024, após duas temporadas na Série B, foi vice-líder do torneio, ficando a um ponto atrás do primeiro colocado, o Santos, chegando à tão sonhada primeira divisão.

No Brasileirão de 2025, em sua estreia na elite nacional, o Mirassol atingiu marcas importantíssimas, como a classificação para a Copa Libertadores de 2026 pela primeira vez em sua história.

O Leão foi o melhor estreante da história do torneio na era dos pontos corridos, o que rendeu a quarta colocação do Campeonato Brasileiro, com 67 pontos somados, garantindo a passagem para a competição internacional de forma direta, sem passar por fases preliminares.

“É lógico que, quando surgiu o acesso para a Série A, houve uma preocupação muito grande por parte de todos. Não preocupação, mas um sentimento de alerta ligado, porque a competição é muito difícil, ainda mais com as equipes hoje cada vez mais se reestruturando, não só na questão financeira, mas estruturalmente, principalmente em relação a centro de treinamento", explicou antes de completar.

“O Mirassol é uma equipe que, até pelo contexto de clube, de cidade, que, se nós, alguns anos atrás, pensássemos que isso ia acontecer, seria meio que uma utopia. Mas, como o clube tem essa gestão sólida, que faz você acreditar que, com o trabalho, com a organização, com o dia a dia, com a honestidade que é inserida dentro do clube, fez acontecer esse momento.”, completou.

O Estádio José Maria de Campos Maia, popularmente conhecido como Maião, foi a fortaleza da equipe na competição, onde bateu o recorde da Série A de maior invencibilidade de um time atuando em seus domínios, passando as 19 partidas como mandante sem uma derrota sequer. Somando com o início do Brasileirão de 2026, foram 22 jogos sem saber o que é perder; porém, a sequência chegou ao fim na 7ª rodada deste ano, quando o Mirassol acabou perdendo para o Coritiba por 1 a 0.

Ainda sobre o retrospecto em casa na última temporada, o clube teve a 5ª melhor campanha, com o segundo melhor ataque, marcando 42 gols, atrás somente do Flamengo, com 46 tentos anotados. O setor ofensivo teve grande destaque na campanha do Leão, sendo a terceira equipe que mais balançou as redes em todo o campeonato, superando a meta adversária em 63 oportunidades, atrás de Flamengo, com 78, e Palmeiras, com 66.

“Sabíamos que a competição seria muito difícil, mas o Mirassol provou que, com o trabalho, com a honestidade, com os pés no chão, com a simplicidade, mas, acima de tudo, com a coragem e a confiança de fazer as coisas bem feitas, você pode competir de igual para igual e, consequentemente, você ter resultado. E o resultado que veio foi uma situação ímpar para o primeiro ano.”, Ivan Baitello sobre a campanha fantástica no Brasileirão de 2025.

Expectativa na Libertadores
No Grupo G da Copa Libertadores, o Mirassol se prepara para seus primeiros desafios internacionais em busca da glória eterna. A equipe do interior terá pela frente o Lanús-ARG, atual campeão da Copa Sul-Americana e adversário da estreia do Leão. Ainda enfrentará o campeão da competição em 2008, a LDU-EQU e, por último, encara uma nova realidade, enfrentando os 4.000 metros de altitude da cidade de El Alto, lar do Always Ready-BOL.

O auxiliar técnico do clube acredita que a ótima campanha da última edição do Brasileirão pode inspirar o Leão para enfrentar os rivais internacionais: “Acho que a campanha do ano passado no brasileiro é um fator que faz nós acreditarmos que, independente das adversidades somos capazes, é claro que é uma situação diferente. Jogar na altitude, logística, perfil de arbitragem, é uma situação nova para o clube, assim como a Série A foi nova para o clube também. Quando estreou na Série A, a grande maioria dava o Mirassol como rebaixado, até nível de chacota, que iria bater o recorde de menos pontos conquistados. E o Mirassol provou que, com trabalho, no silêncio, mas procurando sempre fazer o seu melhor, conseguiu ter resultado e performando.”

“Então, a Libertadores é a mesma situação. É um plus para o clube, temos o Brasileiro e a Copa do Brasil, mas é uma competição que possibilita sonhar, porque é uma competição que é grupo e depois eliminatória. por mais que tenha altitude, e situações que são fator complicante, o clube tem condição de fazer uma competição digna e, com certeza, buscar classificação e depois buscar os jogos mata-mata para passar de fase.”, completou Ivan.

O impacto além das quatro linhas
A disputa de uma competição internacional como a Libertadores movimenta vários setores que vão além do campo, principalmente em cidades do interior, que encaram essa situação como novidade na região. Por conta da participação do Leão na competição, o Aeroporto de São José do Rio Preto, cidade próxima a Mirassol, passou por uma internacionalização temporária, já que a CONMEBOL exige a existência de um aeroporto internacional em um raio de 150 km do local em que o clube está sediado.

"O clube impacta muito na região. Se você pegar a frequência de público hoje no estádio do Mirassol, no Maião, mais de 50% não é mais somente da cidade, são pessoas da região. O clube virou o segundo time de muitos e o primeiro de muitos hoje. Hoje você anda pela região, quando você vai em Rio Preto, que é a cidade satélite da região, se vê muitas crianças com a camisa do Mirassol, e não moradores da cidade de Mirassol.”, enfatizou.

“O Mirassol virou um case de sucesso, não só dentro de campo, mas fora de campo também porque representa muito e valoriza muito esse sentimento de poder, você conseguir vencer. Isso, em qualquer setor, faz com que as pessoas acreditem. E a cidade, a região vive isso. Onde você vai, todos falam de Libertadores. E nós não podemos normalizar isso como se fosse uma coisa simples. O Mirassol jogar uma Libertadores, porque é muito difícil. Se você fizer um estudo, muitas equipes com 20, 30 anos de Série A não atingiram a Libertadores. O Mirassol, no primeiro ano, atingiu. Então, é um feito muito grande, muito mesmo. Então, a gente tem que valorizar em cima disso, pelo que aconteceu.”, disse.

Manutenção do trabalho
Ao longo dos anos, equipes emergentes do futebol paulista fora da capital chegaram a disputar a Libertadores, como Guarani (1979, 1987 e 1988), Paulista (2006), Red Bull Bragantino (2022 e 2024), São Caetano (2001, 2002 e 2004) e Santo André (2005). Entretanto, alguns clubes viveram uma queda após o auge. Ivan Baitello comentou como o Mirassol pode se manter nesse patamar.

“Essa é uma situação que nós temos que ter os pés no chão. O futebol não perdoa. O futebol, ao mesmo tempo que ele te traz um ano maravilhoso de 2025, talvez você tenha um ano de 2026 com um pouco mais de percalços e, dentro disso, você tem que estar preparado. Para o Mirassol se manter nessa situação, a primeira coisa é manter a gestão que está sendo feita, porque é natural você oscilar durante o ano, oscilar durante as competições. Estamos falando de um campeonato brasileiro que, com exceção, se não me engano, de Flamengo e São Paulo, dos grandes dos estados, todos já rebaixaram de divisão. Então, isso é uma coisa natural. O que aconteceu com o Mirassol não é uma coisa que não acontece com os outros. Mas você está preparado para isso e saber que o resultado do futebol está muito atrelado à confiança e ao dia a dia.”, declarou Ivan.

Baitello enfatizou o foco na continuidade do projeto, mesmo diante de dificuldades: “Se você pegar a maioria das equipes que foram emergentes, tiveram sucesso e acabaram não tendo mais, foi por gestões deficitárias. Gestões que não suportaram momentos difíceis em relação ao aporte financeiro. Mas o Mirassol tem essa gestão que prioriza muito isso, você ser sempre saudável e, consequentemente, você dar muita condição para o trabalho. Essa é a principal situação para que o clube continue disputando e fazendo frente para as melhores equipes do país.”, finalizou.

A hora é agora
O Mirassol estreia na Copa Libertadores na próxima quarta-feira, 8 de abril, às 19h, diante do Lanús, com o apoio de seu torcedor no Estádio José Maria de Campos Maia.

*sob supervisão de Luiz Minici



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