Raoni David
Grandes equipes são forjadas na superação de grandes desafios. E foi assim que o Palmeiras, ainda conhecido como Palestra Itália, conquistou o seu primeiro título paulista, há exatos 100 anos. Um século depois, o time que superou um tetracampeão para levantar sua primeira taça, é um dos mais vencedores da história do futebol brasileiro.
Único tetracampeão do Campeonato Paulista até hoje, o Paulistano era o principal time das primeiras décadas do futebol de São Paulo e ostentava as taças de 1916 a 1919, quando Paulistão de 1920 se iniciou. Vice-campeão no ano passado -um ponto atrás-, o Palestra Itália estava disposto a mudar essa história. Para tanto, precisou fazer um jogo-desempate com o favorito Paulistano, após derrota traumática que adiou o título.
Aquela competição seria disputada por dez times em pontos corridos. Porém, à época não havia critério de desempate e caso dois times encerrassem a fase regular com o mesmo número de pontos, teriam que decidir o título em confronto direto. Foi o que aconteceu.
Disputa ponto a ponto
O início do Palestra Itália foi arrasador, com oito vitórias seguidas. Destaque para as goleadas por 11x0 sobre o Internacional; 7x0 na parceria Mackenzie/Portuguesa; 5x0 na Associação Atlética das Palmeiras; e 3x0 no Corinthians, logo na estreia. Na nona rodada, o adversário era o Paulistano, que havia atuado sete vezes com seis vitórias e um empate.
O 1x1 no Parque Antárctica parece ter abalado o Palestra que perdeu o confronto com o Corinthians e empatou sem gols com o Ypiranga. Na sequência, porém, engatou outras cinco vitórias e, contando com tropeços do rival, manteve-se na briga e dependendo apenas de si para ficar com a taça. Na última rodada, o Palestra tinha 26 pontos*, contra 24 do Paulistano e um empate bastava para obter a taça inédita.
Derrota, crise e a ‘base’ salvando
Dentro do projeto palestrino de se tornar um grande clube do futebol paulista, estava a formação de dois quadros fortes. O campeonato de Segundos Quadros -que mais tarde com a profissionalização se tornaria os Aspirantes- já havia sido vencido pelo Palestra antes da conquista pelo time principal. A força desta segunda equipe seria fundamental para o título.
Quando Palestra Itália e Paulistano se enfrentaram no Parque Antarctica no dia 12 de dezembro, o empate servia ao time da colônia italiana. Mas o craque Arthur Friedenreich marcou aos 23 minutos do segundo tempo e igualou as equipes em pontos perdidos. A decisão do título se daria em um jogo-desempate.
Marcado para o dia 19, o confronto tinha o Palestra Itália pressionado e sua diretoria, bastante irritada, tomou providências após a derrota que adiara o título na semana anterior. Os titulares Grimaldo, Fabbi, Caetano e Imparato I saíram do time, cedendo seus lugares a Oscar, Severino, Forte e Federici, destaques do segundo quadro.
A medida animou o forte time do Paulistano, que em certo ponto viu o campeonato perdido, e agora enfrentaria uma decisão com o rival enfraquecido de quatro dos seus titulares. Mas as expectativas do tetracampeão foram frustradas justamente por um dos que vieram do segundo time. No campo da Chácara da Floresta, Martinelli abriu o placar aos 10 minutos da segunda etapa, mas Mario Andrada empatou para o Paulistano aos 14. Forte, surpresa na escalação, foi o herói do título com gol aos 39 minutos da segunda etapa.
Potência
Desde a inédita conquista, o Palestra Itália -que passou a se chamar Palmeiras a partir de 1941- tornou-se um dos maiores vencedores do futebol brasileiro. Ao todo, são 23 títulos estaduais, conquistados em 1920, 26/27, 1932/33/34, 1936, 1940, 1942, 1944, 1947, 1950, 1959, 1963, 1966, 1972, 1974, 1976, 1993/94, 1996, 2008 e 2020.
Palestra Itália 2x1 Paulistano
Data: 19 de dezembro de 1920;
Local: Chácara da Floresta, em São Paulo;
Árbitro: Hermann Friese;
Gols: Martinelli, 10’, Mario Andrada, 14’ e Forte, 39’ do 2ºT;
Palestra Itália: Primo; Bianco e Oscar; Bertolini, Picagli e Severino; Forte II, Ministro, Heitor, Federici e Martinelli.
Paulistano: Arnaldo; Guarany e Carlito; Sergio, Zito e Mariano; Agnello, Mario Andrada, Friedenreich, Cassiano e Carneiro Leão.
*Na classificação da época era considerado o total de pontos perdidos.